Ao terminar Double Exposure, a polêmica sequência de Life is Strange, a sensação que tive foi a mesma que me perseguiu por todo o caminho: desconexão. O título falha nos pontos em que o original mais acertava, e que infelizmente para todos, eram cruciais na geração do vínculo com o jogador.
"Polêmica" porque quase ninguém esperava que a Deck Nine, responsável pela franquia desde que a Square Enix a tirou da Don't Nod, ousaria resgatar a protagonista clássica da série, Max Caulfield. Veteranos sabiam que a proposta 1. mexeria em solo sagrado para fãs hardcore e 2. exigiria fechar pontos deixados abertos. Já de partida, soava como péssima ideia. Eles se esforçaram, mas não adiantou muito.
A análise tem spoilers menores de Double Exposure, sem detalhar a história.

É importante avisar que, se você nunca jogou o primeiro, vai demorar para entender as referências. Eles são despretensiosas como um cervo ou borboleta azul, ou ligações diretas, como mensagens e postagens sociais de conhecidos, a memorabilia na casa de Max e, nos capítulos finais, pontes ainda mais retas com a trama de 2015.
Velha Max
A notícia ruim é que, mesmo que tenha jogado, você sentirá que algumas parecem uma tentativa frouxa, até apelativa de aproximá-los, não ligações necessárias. Double Exposure anda sozinho em sua narrativa, mas ela não nos faz gostar dos personagens a ponto de chorar, sorrir ou lamentar por eles, nem como boa trama de mistério que tenta ser.
Como disse, resgatar Max exigiria responder perguntas deixadas à nossa interpretação em LiS, e que eram parte do doce amargo do desfecho original. A tropa do Pricefield (os fãs mais radicais do não-canônico casal Chloe Price e Max Caulfield, de LiS 1), que foi inclemente com o excelente Life is Strange 2 pela falta das garotas, será o público mais indignado com Double Exposure, já que independente de sua escolha, o destino delas foi selado: não tem Pricefield.
Max não é mais uma adolescente insegura começando a vida adulta, mas uma fotógrafa de certo renome da Universidade Caledon. Ela é intrometida e curiosa como sempre, ouvindo conversas atrás de portas e fuçando em gavetas, mas debochada e atrevida como nunca, talvez resultado de alguns anos na estrada com e sem Chloe — Caledon fica em Lakeport, Vermont, no outro lado do país, em relação ao Oregon de LiS 1.

A Max de vinte e poucos anos pode beber (embora ainda odeie cerveja) para arrancar segredos dos caras, fumar um baseado com a professora de literatura e jogar "Smash or Pass", sendo alvo dos flertes frequentes de dois personagens: a barwoman gente finíssima Amanda e o secretário metido a ator, cheio de falhas de caráter e vulnerabilidades, Vihn.
Relacionamentos e poderes
Double Exposure mantém, assim, uma tradição da série: as opções de romance masculino e feminino para a protagonista. Nos primeiros vinte minutos, fica claro o papel de Amanda, mas sinceramente, eu esperava que o potencial romance masculino dela fosse Moses. Ambos são nerds, estudiosos, avessos à vida social e um pouco diferentes do padrão (a Deck Nine confirmou que o astrofísico é do espectro autista), enquanto os primeiros contatos com Vihn beiram a agressividade velada, e depois Max precisa ignorar uma relação muito importante dele no passado. Um dos relacionamentos mais improváveis e incômodos da franquia.
Já Amanda é o tipo "beije-a, ela existe pra isso, assinado Deck Nine" e seria tachada como "Manic Pixie Dream Girl", se Max fosse homem. Com história pouco desenvolvida e talvez nem metade da importância de Vihn no desenrolar do enredo, a personagem é até simpática, mas mal explorada, com a profundidade de uma poça d'água. Amanda só está em cena para ser legal e beijar a boca de Max, se você quiser.

De novo, Max apela aos poderes — por mais que seja estúpido — para salvar Safi, baleada sem explicação aparente. Apesar de não saber mais como retroceder o tempo, a heroína descobre um novo conjunto de habilidades interdimensionais, cujas mecânicas são usadas e abusadas. Supõe-se que ela não consegue mais retroceder o tempo, mecânica elementar em sua estreia, porque os poderes "atrofiaram" por falta de uso.
E aí ela descobre um poder ainda maior? Tá bom, Deck Nine, sigamos...
Ela pode estar bloqueada por um obstáculo intransponível, mudar de dimensão, passar por ele, e voltar à dimensão original. Ou, ao lidar com um NPC hostil, obter a informação no outro lado, seja passando a conversa na versão alternativa — que é, óbvio, sempre mais propensa a abrir o bico —, ou ouvindo as conversas do original (ela pode ouvir e ver o que se passa nas diferentes realidades ao mesmo tempo). Também pode traficar objetos de um lado para o outro, como uma chave ou um documento, entrar em salas trancadas, e muito mais.
Soa repetitivo, mas funciona e tem bons momentos, embora mais adiante, a viagem para dentro de fotografias ressurja como um tremendo de um deus ex machina, recuperado de forma oportuna demais. A jogabilidade é banal, como de costume — tudo bem, porque ninguém joga Life is Strange esperando controles ou puzzles revolucionários. Em raríssimos pontos, há um esboço de variação, como na sequência de stealth em que Max precisa obter um item sem ser vista pelo detetive. Mas não é variação real, já que a solução é sempre a mesma.
Sem vínculo

O que mais me incomodou em Double Exposure foi a incapacidade dos personagens em me cativar. Não me conectei a eles, embora alguns sejam simpáticos o bastante para tirar uma risada do jogador aqui e ali. Até a dinâmica de Safi e Maya remete a Chloe e Rachel — a amiga revoltada porque teve uma amiga que morreu — mas ninguém me pareceu tão íntimo para merecer que Max voltasse a usar poderes, algo que ela sabia no que daria.
Os eventos mais chocantes não tem o impacto desejado. Não espere nada como as cenas de Max encontrando Chloe na dimensão paralela, o dramático evento com Kate, ou a montanha-russa de emoções dos momentos derradeiros de LiS. Double Exposure não chega nem perto, em momento algum.
A explicação é simples, e está na estrutura de cada história. No Life is Strange clássico, passamos cinco episódios protegendo nossa companheira de jornada. Em Double Exposure, Max vaga entre dimensões quase sempre sozinha; até certo ponto do terceiro episódio, ninguém sabe de seus poderes. Em uma das realidades, a "melhor amiga" nem existe, e na outra, Max tem a atenção dividida com os potenciais romances — que tentei evitar ao máximo e mesmo assim, pensei que o jogo a obrigaria a cair nos braços de algum, de tão intensos que eram os flertes não solicitados.
No fim, ela ficou mesmo sozinha, mas cara, algumas cenas foram tensas...

As atuações e script são bons, com destaque para Hannah Telle retornando ao papel de Max e mantendo sua essência, apesar da maturidade. Safi também é ótima e Moses não decepciona. Outros são menos inspirados, como o detetive que se converte em policial neurótico rápido demais, e a super estereotipada Yasmin, típica ricaça mais preocupada com o trabalho com o que o bem-estar da filha — culpa do script, não dos atores.
Woke? Nem tanto
Um pessoal reclama que LiS é uma série woke, pela abordagem de questões políticas e sociais como imigração, violência policial e bullying, e dos relacionamentos gays e bissexuais. Estes vão reclamar ainda mais, mas pelas razões erradas. Diria que Double Exposure pode ser o menos woke da série até hoje.
É, sim, um grande Planeta Fluído e Super Diverso da Sexualidade. Em um momento, um dos caras está fazendo movimentos mais que óbvios sobre Max, e se levar um não, estará flertando ou namorando com outro cara pouco depois, e você pensa "caramba, nem vi isso vindo". É assim, de suspiros e olhares apaixonados num segundo, para os braços de alguém do mesmo sexo nos diálogos seguintes.
Problema? Não em essência; bem-vindos ao mundo real, onde diversidade existe. Representar essas minorias é bom porque cria um retrato mais crível de sociedades também formadas por latinos, pretos, gays, lésbicas, autistas, etc. Mas o de Double Exposure é tão forte que ficou meio... caricato, talvez? Enquanto a demografia LGBTQ+ nos Estados Unidos fica entre 5 e 9% (declarados, ou seja, é mais), a de Double Exposure, no recorte dos personagens principais, é superior a 50%. Max, Reggie, Moses e Vihn são bissexuais, no mínimo, com fortes sinais de Safi e Diamond; Amanda é lésbica, Gwen é uma mulher trans e casada com uma mulher. Os heterossexuais são personagens mais velhos e/ou secundários, como Yasmin, a fofoqueira Loretta e o professor babaca (pô, de novo?) Lucas Colmenero.

Como de costume, não gostei das legendas em português e desisti delas no segundo episódio (o print acima foi só pra análise). Estão lá frases e gírias da geração Z, como um "habla mesmo" e outras tiradas da boca de influenciadores, youtubers e tiktokers brasileiros, indicando qual o alvo da publicadora. Se você gosta, bom proveito, tem bastante. Se é um pouco mais velho, melhor entender de inglês, porque não tem nada daquilo no script original, estão forçando a barra nas adaptações.
Hablo mesmo.
Fora do tom
Além de personagem não muito interessantes, a trama é um tanto confusa, com suas idas e vindas, e eventos que mais tarde parecem uma bela perda de tempo. Num segmento, você investigará um mistério sobre um crânio, só para descobrir o autor e... não tem nenhuma consequência, era só isso mesmo. Temas como suicídio, trauma, separação, famílias disfuncionais e drogas são abordados, mas nenhum com profundidade, incapazes de ativar uma resposta emocional intensa.
No fim, a Deck Nine reciclou muita coisa, como a ideia dos pesadelos de Max, mas é só uma forma barata de resgatar uma das sequências mais lembradas do LiS original, com direito a tornado, o fatídico banheiro de Blackwell e elementos da sala escura. A grande "reviravolta" tem muitas implicações futuras, como se Double Exposure fosse a abertura de uma franquia e não a terceira ou quarta entrada de linha principal.
De certa forma, um dos finais contraria a premissa de que Max faria tudo de novo para salvar uma amiga, já que ela pode ser a voz da razão. Todo o juízo que ela não ganhou nos anos na estrada, virando mulher e digerindo o desastre pessoal ou coletivo de Arcadia Bay, aparece no fim, num surto de maturidade?

A trilha sonora de Double Exposure é a mais fraca da série. Quase todas as músicas sequem um padrão: vocal feminino suave, ritmos calmos, que combinam com o clima gélido dos cenários, mas resulta numa seleção extremamente monotemática e sem tempero. Tirando duas ou três (como "I'm Not", de Matilda Mann, e "Under my Skin" de NewDad), você esquecerá da maioria ou nem vai notá-las.
Das faixas da artista principal, Tessa Rose Jackson, a única que achei aceitável foi "Wake". Esqueça a ambientação que a Don't Nod criava, com grandes artistas como Syd Matters, Mogwai e Bloc Party. Não tem. Se quiser conferir, a trilha sonora está no YouTube.
Não gostei também de como o jogo aborda personagens do passado. Além de definir o destino de Max e Chloe (não interessa quem você salvou, há uma definição e muita gente vai chiar), há interações mais que estranhas, como amizades improváveis e nenhum sinal de outros.
Exemplo: se você salvou Chloe, Max terá uma cópia da foto delas no deserto, a mesma que vemos no trailer de David, em Life is Strange 2. Mas ela não faz qualquer comentário sobre o ex-militar e a passagem delas pelo lugar. Lembrar do deserto seria uma excelente oportunidade de citar LiS 2 e Captain Spirit, entrelaçando todos os episódios. Também não são citados nomes muito importantes como Warren e Kate (exceto na sequência de alucinações), mas ela segue Victoria Chase nas redes sociais 🤨.
Podia ser pior, mas...
O que tem de legal em Double Exposure? Gráficos e animações. As animações faciais são ótimas, especialmente as de Max, Safi e Moses, e o trabalho dos atores é preciso. Cenários são detalhados e permitem boa exploração, apesar da pouca liberdade de ação. Há pouca variação, indo de poucas salas no interior da faculdade ao bar Snapping Turtle, raras passagens pela casa de Max, uma pelo laboratório e o exterior nevado.
Nem as diferentes realidades — uma cheia de enfeites natalinos e cores, onde Safi está viva, e o inverso tristonho na outra — ajudam, já que os cinco episódios, exceto pontos do capítulo final, se passam nos mesmos ambientes. Mas não é ruim.

No geral, sem se escorar no passado, Double Exposure já não seria grande coisa na franquia; com ela, virou um esforço da Deck Nine em resgatar a alma das primeiras partes, mas esbarra na trama pouco convincente e personagens que, por mais que se esforcem, não cativam.
O jogo é curto (levei 12 horas) e o final, um dos menos apoteóticos e o primeiro cliffhanger da série — e com um futuro preocupante, com dois potenciais "vilões", como se fosse um episódio dos X-Men. Não pense que enlouqueceu com as fortes vibrações de Magneto, é real. Como diz Safi, Max parece um super-herói e com três poderosos no mesmo jogo, fica a impressão de que a Deck Nine está enfiando Life is Strange na rota de uma guerra de mutantes. Foi a amarga impressão final.
Positivo
- Gráficos
- Animações
- Vozes e atuação
Negativo
- Enredo
- Trilha sonora
- Criatividade
Jogos citados

Life is Strange: Double Exposure
PS5, WIN, XBS, SWI
Life is Strange: Double Exposure é um jogo de aventura gráfica, produzido pela Deck Nine e publicado pela Square Enix. Marcou o retorno da protagonista do jogo original da série, Max Caulfield, que investiga a morte da amiga Safi através de realidades alternativas.